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Amiraldo Martiniano de Gusmão Júnior
Fernando Gelati
Curitiba 1997
Sumário
Lista de ilustrações
Introdução
Em 52 a.c., Júlio César lutou aquela que foi sua batalha decisiva na conquista da Gália, ao redor da cidade fortificada de Alésia. Após esta batalha, a maior parte da resistência gaulesa ao invasor romano cessou, persistindo somente alguma oposição esporádica e não organizada. A conquista da Gália por César alterou profundamente o mapa geopolítico de Roma, mudando o eixo da civilização romana do mediterrâneo para a Europa ocidental, e alterou de forma indelével o desenvolvimento cultural dos povos que ali viviam. Os Gauleses eram os mais populosos e poderosos dentre as populações a que se convencionou chamar de Celtas. Excelentes artesãos, ferreiros e armeiros, alguns deles estavam construindo prósperos núcleos urbanos, alfabetizando-se e organizando Estados bem estruturados quando César invadiu a Gália. Esta conquista por parte de Roma, longe de destruir esta vitalidade cultural, ao contrário, adicionou os elementos civilizatórios da poderosa cultura do mundo romano à "bárbara" visão celta do mundo, e moldou os primitivos contornos daquela que seria uma das maiores e mais brilhantes civilizações européias.
Mas por que tal batalha se revestiu de tanto significado? A importância da batalha de Alésia fica clara quando analisamos os números envolvidos. Do lado romano, sessenta ou setenta mil homens, entre romanos e seus aliados germanos. Do lado gaulês, entre setenta e oitenta mil homens cercados dentro da fortaleza de Alésia, mais duzentos e sessenta mil, provenientes de mais de sessenta tribos, atacando os romanos em duas frentes, numa incrível vantagem numérica de cinco para um. Em vista deste quadro, surge a questão inevitável: como conseguiu César obter uma vitória tão decisiva e esmagadora diante de tão grandes desvantagens? Durante muito tempo pensou-se que tais números não passavam de uma fantasia criada pelo próprio César, destinada a engrandecer os feitos militares de suas legiões com o intuito de reforçar sua já sólida reputação como comandante militar e pavimentar seu caminho rumo ao controle da política romana. Entretanto, pesquisas e análises recentes, incluindo escavações arqueológicas realizadas no sítio da batalha, revelam que os números fornecidos por César em sua obra De Bello Gallico foram surpreendentemente exatos. Não é o objetivo deste trabalho comentar como se chegou a esta conclusão, mas simplesmente analisar as condições e ações que possibilitaram a César sair vitorioso de seu maior embate contra os gauleses. Para tanto, após uma breve exposição do quadro histórico onde se inseriu a campanha da Gália, incluindo uma breve biografia de César, transcrevemos os capítulos do De Bello Gallico que fazem referência especificamente à batalha de Alésia, procedendo a uma análise cuidadosa de cada um destes capítulos, utilizando para tanto toda uma bibliografia referente às condições materiais, procedimentos tático-militares e até mesmo a geografia da região onde se deu a batalha. Para facilitar a compreensão dos aspectos táticos, incluindo a movimentação das tropas durante a batalha, procuramos utilizar, da forma mais extensa possível, mapas e gráficos, na sua maior parte baseados no recente trabalho de Emile Mourey sobre o tema. Finalmente, procuramos responder à questão central deste trabalho, explicando as razões da vitória romana. Espera-se que as atuais escavações arqueológicas que vêm sendo realizadas não só no sítio de Alésia como em outros locais onde ocorreram batalhas importantes durante a campanha da Gália, como Bribacte e Gergóvia, nos tragam, num futuro próximo, novos dados que permitam traçar com mais exatidão o desenrolar das guerras gálicas, preenchendo pelo menos algumas das muitas lacunas que obscurecem nossa visão sobre este fascinante momento histórico.
César, Roma e as guerras Gálicas
A partir de meados do ano 100, Roma começa a sofrer um período de grande
turbulência política e social que só terminará com a nomeação de César
para ditador. Nesta época Roma era governada por Mário, eleito cônsul pela
sexta vez consecutiva. Em 88, Mário foi derrubado por Sila, que se torna cônsul.
Sila deixa Roma no comando de uma expedição contra Mitridates IV, quando Mário
aproveita sua ausência para voltar a Roma e reassumir o governo, sendo eleito cônsul
pela sétima vez. Contudo, Mário morre logo em seguida, em 86. A partir daí, o
governo passa para as mãos dos populares, provocando uma violenta reação da
aristocracia e um caos político que durou 4 anos. Em 83, Sila retorna de sua
campanha na Ásia Menor e reassume o governo, fazendo-se nomear ditador pelo
senado, por tempo indeterminado, iniciando um período de terror em que eliminou
um grande número de adversários, particularmente entre os populares. Segundo
Plutarco, César só escapou de ser proscrito e executado devido à sua
juventude e ao fato de sua família não gozar de expressividade nos meios políticos.
César, nesta época com 19 anos, entra para o exército como soldado de
cavalaria, e é designado para um posto na Anatólia ocidental. Como era filho
de senador, foi designado para uma missão importante na Bitínia, onde recebeu
a incumbência de conseguir uma esquadra junto ao rei Nicomedes IV para auxiliar
a campanha contra Mitridates. Durante a conquista da cidade de Mitilene, entrou
em combate pela primeira vez e ganhou a coroa cívica, aparentemente ao salvar a
vida de um companheiro de armas. Sila permaneceu no poder por apenas quatro
anos, e seu maior projeto foi o restabelecimento da república, com o
fortalecimento da oligarquia senatorial. Após a morte de Sila, em 78, César
retorna à Roma, onde permanece até 75, quando parte para Rhodes para estudar
retórica com Apolônio Mólon, que havia sido professor de Cícero. Durante o
trajeto, é capturado por piratas, que posteriormente derrota e crucifica.
Quando eclode nova guerra no oriente, durante a terceira campanha de Mitridates
contra as tropas romanas, César deixa Rhodes e, agindo sem ordens oficiais de
Roma, monta um exército por conta própria, e acaba e por unir-se às forças
oficialmente designadas para conter a agressão.
A partir daí aparecem em cena as figuras de Pompeu e Crasso, que passam a dominar a cena política romana. Retornando a Roma, César começa a pavimentar seu caminho para o poder. Em 73, torna-se membro do corpo de sacerdotes. Em 69, serve como questor na Espanha. Nesta época, começa a fazer elogios à Mário, o que gera descontentamento na aristocracia que passa a vê-lo como um perigo ao seu poder. Em 67, casa-se com Pompéia para obter fundos para manter-se no cargo de questor. Retorna a Roma em 65, quando torna-se edil das obras públicas e passa a gastar grandes quantias (com fundos provenientes da fortuna de Crasso) nos divertimentos públicos, o que lhe angariou a simpatia do povo. Através da popularidade conquistada, elege-se Pontifex Maximus em 63. A seguir, em 62, é eleito pretor. Retorna à Espanha, onde obtém grandes triunfos militares sobre rebeldes, o que lhe vale um triunfo votado pelo senado. Porém, César percebe que o triunfo era apenas uma manobra política para impedi-lo de alcançar o consulado, já que por lei o triumphator deveria permanecer fora dos muros de Roma até o dia do triunfo, que ocorreria somente após as eleições. Contornando esta restrição, César antecipa a data do triunfo. Entretanto, todo este cuidado revela-se inútil, e César não obtém o desejado cargo de cônsul devido a manobras do senado. Consegue, no entanto, o cargo de governador da Espanha.
Em 60, César retorna à Roma, e aproveitando o descontentamento de Pompeu com o comportamento do senado, que lhe negou a recompensa devida aos soldados de seu exército vitorioso e não ratificou seus tratados, assim como a de Crasso, que apesar de sua riqueza não obteve a permissão de montar um exército para sua glória pessoal, monta com estes dois uma coalizão que virá a ser conhecida como primeiro triunvirato, com o objetivo de satisfazer as ambições de seus dois aliados e finalmente alcançar para si mesmo o tão almejado consulado, o que consegue em 59. Após o seu consulado, César foi nomeado procônsul das Gálias e da Ilíria, em 58.
Logo após assumir o governo da Gália, César teve de enfrentar uma massiva
migração de helvécios, que fugindo dos bárbaros germânicos, saíram da região
de Geneva em direção ao sul da Gália. César enfrentou-os em Bribacte,
derrotando-os por pequena margem. Na mesma época, teve de combater também as
forças do chefe germânico Ariovisto, que venceu numa batalha perto de Osthein,
a leste do Reno. Sua vitória contra os helvécios e os germânicos valeu-lhe a
gratidão dos gauleses, o que fez com que César considerasse a libertação
da Gália como a conquista da região, passando a organizá-la
imediatamente sob a autoridade romana, sob o pretexto de que só assim poderia
defendê-la de novos ataques germânicos. Tal atitude não foi bem recebida
pelos gauleses, que temendo perder sua autonomia rebelaram-se, pedindo inclusive
a ajuda de várias tribos belgas. César derrotou todas as tentativas de rebelião,
e em 56, o senado romano declarou a Gália como província romana.
Em 55, César traça um plano com Pompeu e Crasso na cidade de Luca para que os mesmos disputassem o senado naquele ano. Ficou estabelecido que Pompeu seria governador da Espanha; Crasso, o da Síria, e que César teria seu mandato como governador da Gália renovado por mais cinco anos. Com a situação mais ou menos estabilizada, César pôde voltar-se novamente para os problemas na Gália, que sofria novas invasões germânicas. César derrotou os invasores e perseguiu-os até o Reno. Seus engenheiros construíram uma ponte sobre o rio e César cruzou-o e promoveu um massacre indiscriminado, matando inclusive mulheres e crianças, num número estimado de 370.000 mortes, para servir como exemplo às outras tribos germânicas. O massacre foi tão expressivo que gerou protestos até mesmo em Roma, fazendo com que os senadores qualificassem César com os epítetos de "bárbaro" e "desumano". Catão chegou a pedir que o conquistador fosse entregue aos germanos para expiar seus excessos, sob pena de toda a Roma incorrer na ira dos deuses. Nesta mesma época, César invade a Bretanha com uma pequena força, mas não estabelece uma base firme na ilha.
Em 52, quando César estava aquarte-lado com uma pequena força no norte da Itália,
foi surpreendido por uma sublevação em larga escala na Gália, comandada por
Vercin-getórix. Com as forças gaulesas entre ele e o grosso de seu exército,
estacionado no norte da Gália, César transfere o comando para Bruto e arrisca
tudo numa corrida temerária através da região sublevada até alcançar seu exército,
e inicia imediatamente a reação, sitiando, capturando e saqueando várias
cidades, matando a população e abastecendo-se com a pilhagem. Sua sorte mudou
em Gergóvia, quando, derrotado, foi obrigado a recuar, perdendo o apoio de várias
tribos, entre elas a dos Éduos, que atraiçoando-o, tomaram-lhe várias bases e
preparam-se para expulsá-lo da Gália Narbonense. Acuado, César decide
arriscar tudo num ataque à Alésia, quartel-general de Vercingetórix, onde
havia aproximadamente oitenta mil guerreiros gauleses. Logo após cercar a
cidade com um número aproximado de setenta mil soldados, soube que uma força
gaulesa de reforço, com um número atualmente estimado em duzentos e sessenta
mil homens, dirigia-se para Alésia para socorrer Vercingetórix. César ordenou
a construção de duas barreiras concêntricas em torno da cidade, compostas de
vários tipos de fortificações e armadilhas, numa obra de engenharia colossal,
e dispôs suas forças entre elas. As forças gaulesas atiraram-se várias vezes
contra as muralhas, dos dois lados, inutilmente. Após quatro batalhas, o exército
de socorro desorganizou-se e dispersou-se, e justamente quando os suprimentos do
exército de César chegavam ao fim, Alésia rendeu-se, castigada pela fome.
Vercingetórix entregou-se a César, foi aprisionado e levado para Roma, onde
foi exibido por César em triunfo, morrendo após seis anos como prisioneiro dos
romanos. A conquista da Gália acrescentou ao império romano uma região duas
vezes maior que a própria Itália. Salvou Roma das invasões bárbaras por
quatro séculos, e elevou César a um degrau inimaginável de prestígio e
poder.
Em 53, com a morte de Crasso, o equilíbrio que mantinha o triunvirato
extinguiu-se, provocando a luta pelo poder entre Pompeu e César. Os laços que
os uniam foram ainda mais enfraquecidos pela morte da esposa de Pompeu, Júlia,
filha de César. A partir daí, a luta pelo poder entre os dois não mais parou
até a morte de Pompeu. O mandato de César como comandante expirava em 49, e
como César não podia voltar a Roma com suas tropas e nem se candidatar a cônsul
antes da expiração do mandato, teria de desmobilizar as suas tropas para poder
concorrer ao cargo. Sabendo que sem suas tropas sua carreira e mesmo sua vida não
teriam bom termo, César desobedece a ordem de desmobilização e desafia o
senado, atravessando o Rubicão em 10 de janeiro com uma de suas legiões.
Prossegue em sua marcha para Roma, enfrentando pouca ou nenhuma resistência, e
conseguindo, ao longo do caminho, mobilizar mais algumas legiões. Assustado com
a adesão de quase todas as cidades à causa de César, Pompeu desiste da luta e
foge de Roma, na esperança de reorganizar suas forças e, através de um
bloqueio naval, forçar César à rendição. César entra na cidade desarmada
em 16 de março. É nomeado ditador, título que rejeita após ser nomeado cônsul
para o período de 48. Persegue Pompeu até a Grécia, onde derrota suas forças
em 9 de agosto de 48, em Farsália. César então persegue-o até o Egito, para
impedir que se juntasse às forças de Catão. Entretanto, ao chegar a
Alexandria, é presenteado com a cabeça de seu adversário, o que lhe provoca
profunda repulsa e desgosto.

César permanece algum tempo no Egito, onde se envolve com Cleópatra. Em 45, derrota os últimos partidários de Pompeu em Munda, e é declarado ditador perpétuo. O grande prestígio de César, o enorme acúmulo de títulos e cargos, e o seu envolvimento com a rainha do Egito, fez com que a aristocracia romana temesse que César se autoproclamasse Imperador, apesar de todas as recusas do mesmo em aceitar semelhante título (não confundir com o título de imperator, ou comandante de tropas). Sua tradicional aversão à monarquia acabou por levar a uma conspiração e ao assassinato de César em 44.
Pequena cronologia da vida de César
Transcrição e análise do De Bello Gallico, Livro VII capítulos 68-90
LXVIII - Afugentada toda a cavalaria gaulesa, recolheu Vercingetórix as suas tropas pela ordem em que as postara em frente dos arraiais, e começou logo a marchar para Alésia, praça dos Mandúbios, ordenando que o seguissem incontinenti com as bagagens tiradas dos arraiais. Enviando sob a guarda de duas legiões as suas bagagens para uma colina, o perseguiu César enquanto durou o dia, e, mortos cerca de três mil da retaguarda dos inimigos, assentou no segundo arraial junto de Alésia. Examinada a situação da praça e aterrados os inimigos por haver sido derrotada a sua cavalaria, força em que mais confiavam, exortou os soldados ao trabalho, e começou as suas linhas de circunvalação.
Após o fracasso do cerco de Gergóvia, que César foi obrigado a suspender,
tanto pela inferioridade numérica quanto pela posição geográfica
desvantajosa, os romanos se viram diante de uma sublevação geral na Gália.
Este levante foi liderado por Vercingetórix, líder dos Arvernos, que
anteriormente já havia combatido César, juntamente com os Carnutes. César
enfrentou as forças gaulesas em várias escaramuças até que Vercingetórix
decidiu rumar para a cidade fortificada de Alésia, atual Alise, cidade próxima
de Dijon, onde pretendia manter os romanos ocupados até a chegada de reforços.
LXIX
- Estava a praça de Alésia em posição mui elevada na cumeada de uma
montanha, cujas raízes eram de dois lados banhadas por dois rios. Diante da praça
estendia-se uma planície de cerca de três mil passos de comprimento: as mais
partes eram circuladas por colinas de igual altura com medíocres intervalos
entre si. Junto à muralha, toda a parte que olhava para o sol nascente, estava
cheia de tropas gaulesas, protegidas por um fosso e um muro de pedra insossa de
seis pés de altura. A circunvalação, que começavam a fazer os romanos, era
de onze mil passos em circuito. Os arraiais achavam-se assentados em lugares
oportunos, e havia neles vinte e três redutos, onde de dia se postavam guardas,
para evitar qualquer súbita sortida dos inimigos, e de noite sentinelas e
fortes guarnições.
Ao
chegar a Alésia, em perseguição às tropas de Vercingetórix, César
decidiu-se pelo cerco, em vista da excelente posição defensiva que gozava
a cidade. Encastelada no topo de uma colina, e cercada, como descreveu César,
por um muro de pedra de aproximadamente um metro e oitenta de altura e um
fosso, a fortaleza proporcionava excelentes condições de defesa, reforçada
pelo fato de só haver terreno plano, necessário para a movimentação de
um exército como o romano, em uma única direção (a oeste da fortaleza),
o que permitia aos defensores concentrar seus esforços. Parece estranho que
César, sabendo de sua inferioridade numérica avassaladora, preferisse
iniciar a construção de uma muralha ao invés de tentar um ataque, que
mesmo sendo arriscado podia definir de uma vez a supremacia romana na Gália.
Entretanto, se analisarmos o perfil tático padrão do exército romano,
veremos que a prática do cerco era mais do que comum. Um general romano,
Corbulo, afirmou certa vez que as batalhas eram ganhas mais pela dolabra (uma
ferramenta usada para cavar trincheiras) que pelo gladium. O sítio
era de certa forma uma tática padrão no exército romano. Compostas por
homens treinados na mais dura disciplina, endurecidos pelo combate, e
confiantes na sua superioridade técnica, as legiões romanas eram
conhecidas por sua capacidade de levantar fortificações praticamente
intransponíveis em curtíssimo espaço de tempo. O equipamento padrão do
legionário romano era composto de, além das armas, geralmente o pilum e o
gladium e o scutum, e eventualmente a javalina e outros armamentos menos
comuns, de um kit básico cuja função era, além de assegurar a sobrevivência
do soldado, provê-lo do equipamento necessário para a construção de
estruturas defensivas e preparação de posições de artilharia. No caso de
Alésia, a muralha que cercava a cidade tinha aproximadamente dezessete quilômetros
de extensão e era protegida por vinte e três torres de guarda.
LXX
- Começada a obra de circunvalação, deu-se um combate de cavalaria naquela
planície, que, interposta às colinas, tinha, como dissemos, três mil passos
de extensão. Combate-se de ambas as partes mui esforçadamente. Achando-se os
nossos em aperto, manda-lhes César em auxílio os Germanos, e forma as legiões
em batalha diante dos arraiais, para que não se desse alguma súbita investida
da infantaria inimiga. Visto o auxílio das legiões, aumenta-se o ânimo aos
nossos; postos em fuga, embaraçam-se os inimigos por sua mesma multidão, e
amontoam nas estreitas portas deixadas. Perseguem-nos os Germanos com ardor até
os entrincheiramentos. Faz-se grande carnificina: tentam até alguns, deixando
os cavalos, transpor o fosso e galgar o muro de pedra insossa. Manda César avançar
um pouco as legiões, que formara diante do entrincheiramento. Não menos se
perturbam os Gauleses, que estavam dentro das trincheiras: bradam armas,
julgando se marchava contra eles incontinenti; lançam-se alguns dentro da praça
aterrados. Manda Vercingetórix fechar as portas desta, para não ficarem
desertos os arraiais. Mortos muitos dos inimigos, e tomados não poucos cavalos,
retiram-se os Germanos.

LXXI - Antes que fosse pelos Romanos concluída a circunvalação, toma Vercingetórix a resolução de despedir durante a noite a toda a sua cavalaria. Aos seus que partiam, recomenda-lhes: "Que vão cada qual para as suas cidades, e reúnam para esta guerra a todos os que estiverem em idade de pegar em armas. Põe-lhes diante dos olhos todos os serviços que lhes havia prestado, e conjura-os a atenderam à sua segurança, e a não abandoná-lo aos inimigos, para sofrer torturas, a ele benemérito da liberdade comum; pois, se fossem
LXVIII - Negligentes em socorrê-lo, haviam de com ele perecer juntamente oitenta mil homens de flor. Que dado balanço nos mantimentos, mal tinha trigo para trinta dias, mas - esse podia aturar mais algum tempo poupando-se". Com tais recomendações, despede na segunda vela da noite a sua cavalaria em silêncio pela parte, a que não haviam ainda chegado às linhas de circunvalação. Ordena com pena e morte aos que desobedecerem, que lhe seja trazido todo o trigo que havia; o gado, de que os Mandúbios tinham recolhido grande quantidade, o distribui a cada um parcamente, e por intervalos; a todas as tropas, que tinha em frente da praça, fá-las recolher para dentro dela. Tomadas essas providências, dispõe-se a esperar as tropas auxiliares da Gália, e a sustentar a guerra.
LXIX - Ao fato de tudo pelos trânsfugas e cativos, assentou César nestes gêneros
de fortificação. Abriu um fosso de vinte pés de largura, cujos lados eram
cortados a pique, e cuja profundidade igualava a largura. Quatrocentos passos
por detrás deste colocou todas as mais fortificações, isto, para que (pois
via-se obrigado a abranger tamanho espaço, que não podia facilmente guarnecer
com soldados), de improviso ou à noite não voasse alguma multidão de inimigos
contra os entrincheiramentos, ou não pudessem de dia arremessar dardos contra
os nossos ocupados no trabalho. No espaço que ficava de permeio, abriu outros
dois fossos de quinze passos de largura, e profundidade igual, dos quais o
interior em paragens campestres e baixas, encheu com água derivada do rio. Por
detrás destes construiu um terrado e tr
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LXX
- Tendo a um tempo de cortarem madeira, de proverem-se de trigo e fazerem tantas
fortificações, necessário era que as nossas tropas ficassem reduzidas, por
amor das que com semelhante destino partiam para longe dos arraiais. Ensaiavam,
entretanto, os Gauleses paralisar as nossas obras, fazendo sortidas em muito
vigor por todas as portas da praça. Por isso entendeu César dever acrescentar
às fortificações o que fosse necessário, para que pudessem ser defendidas
por menor número de soldados. Assim, cortavam-se troncos de árvores com ramos
mui firmes, que descascados se aguçavam em ponta, e faziam-se covas contínuas
de cinco pés de profundidade. Nestas, lançavam-se aqueles estrepes, que se
prendiam pela parte de baixo, para que não pudessem ser arrancados, e ficavam
eminentes pela parte dos ramos. Havia deles cinco ordens conjuntas e entrelaçadas,
nas quais quem entrava, achava-se cravado por agudíssimas puas. Chamavam-lhes
cepo. Diante destes, em ordens obliquamente dispostas em quincunce, faziam-se
outras covas de três pés de profundidade e um pouco mais estreitas para baixo.
Nestas se lançavam estrepes roliços da grossura das coxas com agudas pontas
endurecidas ao fogo, os quais não saíam da terra mais de quatro dedos, e para
cuja firmeza e estabilidade calcava-se um pé de terra em cada cova, sendo o
resto para ocultar a cilada, coberto de vimes e mato. Havia deste gênero oito
ordens, que distavam três pés umas das outras. Chamavam-lhes lírios pela
semelhança com a flor. Diante destes escondiam-se enterrados, e espalhados por
toda parte com pequenos intervalos, estrepes de um pé com pontas de ferro, aos
quais chamavam aguilhões.

Diante de tal
estrutura, os gauleses devem ter perdido toda a iniciativa tática, já que
estavam acostumados ao combate em campo aberto, fazendo uso extensivo da
cavalaria. As camadas sucessivas de armadilhas entre o fosso externo e a
muralha propriamente dita garantiam que o inimigo não conseguiria alcançá-la,
sendo empalado pelas defesas fixas ou atingido pelas flechas e lanças
atiradas da muralha pelos romanos. Mesmo que alguns conseguissem atingir as
posições romanas, já estariam tão reduzidos em número que seriam
facilmente derrotados. Conforme já afirmamos, a muralha era uma obra
impressionante, não só por sua extensão (dezessete quilômetros na muralha
interna, e vinte e dois na externa), como pelo conceito, extremamente avançado
para a época, de defesa em níveis, ou camadas. Até hoje, vários
especialistas em assuntos militares se surpreendem diante do que chamam de
"milagre de Alésia", pois a vitória romana, em vista de uma
inferioridade numérica de um para cinco, era virtualmente impossível. Não
podemos esquecer também um fato que agravava sobremaneira a situação dos
romanos, que conforme veremos mais adiante, tiveram de lutar em duas frentes
opostas, o que é contra todas as regras dos manuais militares, e quase sempre
resulta em desastre. Diante de todas estas dificuldades, não podemos deixar
de admirar a determinação e a genialidade de César, que ao cercar Alésia
como o fez, agiu da melhor maneira possível diante da situação, garantindo
assim a vitória.
LXXI - Concluído isto, acompanhando as paragens as mais planas segundo a natureza do lugar, e abrangendo um espaço de quatorze mil passos, fez em sentido oposto iguais fortificações do mesmo gênero contra o inimigo externo, a fim que nem ainda por grande multidão, se acaso sobreviesse, pudessem ser cercadas as guarnições dos entrincheiramentos; e para que os nossos não se vejam obrigados a sair dos arraiais, ordena que todos se provejam de trigo e forragem para trinta dias.

LXXII
- Enquanto estas coisas se passam em Alésia, os Gauleses, convocados a conselho
os principais, resolvem não chamar a todos os que pudessem pegar em armas, como
queria Vercingetórix, mas exigir de cada cidade um certo número de homens;
pois receavam na confusão de tanta multidão, não poder disciplinar os seus,
nem distinguí-los dos outros, nem prover a todos de vitualhas. Dos Héduos e
seus clientes Segusiavos, Ambluaretes, Aulercos Branovices, Branovios, exigem
trinta e cinco mil homens; igual número de Arvernos conjuntamente com os
Eleuteros, Cadurcos, Gabalos, Velavios, que estavam na sua dependência deles;
dos Sequanos, Senones, Bituriges, Santonos, Rutenos, Carnutes, mil; dos
Belovacos, dez mil; outros tantos, dos Lemovices; oito mil dos Pictões, Turões,
Parisios e Helvécios; dos Sequones, Ambianos, Mediomatricos, Petrocorios, Nérvios,
Morinos, Nitiobriges, cinco mil; dos Aulercos Cenomanos, outros tantos; dos
Atrebates, quatro mil; dos Veliocassos, Lexovios e Aulercos Euburovices, três
mil; outros três dos Rauracos e Boios; trinta mil de todas as cidades que
vizinham com o oceano e soem chamar Armoricas, em cujo número se compreende os
Curiosolites, Redones, Ambibarios, Caletes, Osismos, Lemovices, Unelos. Destes
os Belovacos não compreenderam o número exigido, dizendo que haviam de fazer a
guerra aos Romanos em seu nome, e a seu arbítrio, sem obedecer a ordem de quem
quer que fosse; sendo, porém, rogados por Cômio, seu hóspede, enviaram dois
mil homens.
LXXIII - Da fiel e útil coadjuvação deste Cômio se tinha César, como acima ficou demonstrado, servido os precedentes anos na Britânia; por tão assinalado serviço lhe havia isentado a cidade de tributo, restituindo-a em seus direitos, e a mesma, sujeitado os Morinos. Mas tão geral era a conspiração da Gália para reaver a liberdade, e recuperar a antiga glória das armas, que nem pelos benefícios, nem pela recordação da amizade, se demoviam os Gauleses; e todos concorriam para esta guerra com empenho e forças. Reunidos oito mil de cavalo, e cerca de duzentos e cinqüenta mil peões, nas fronteiras dos Héduos se fazia alardo destas tropas, verificava-se seu número, davam-se-lhes chefes. Ao Artrebate Cômio, aos Héduos Viridomaro e Eporedórix, ao Arverno Varcaci Velauno, primo de Vercingetórix é conferido o comando supremo, juntam-se a estes os escolhidos das cidades, com cujo conselho devia a guerra ser feita. Partem todos para Alésia cheios de ardor e confiança, nem havia um só dentre eles, o qual julgasse poder suportar-se sequer o aspecto de tamanha multidão, principalmente em um combate duplo, pelejando-se da praça por sortida, apresentando-se de fora tantas tropas de infantaria e cavalaria.
LXXIV - Mas os que se achavam sitiados em Alésia, passado o dia em que aguardavam os socorros dos seus, consumido todo o trigo, ignorando o que se passava nos Héduos, deliberavam em conselho sobre a resolução que deviam tomar. E emitidos vários pareceres, dos quais uns propendiam para a rendição, outros, para a sortida da praça enquanto havia forças para tentá-la, não devo passar em silêncio o discurso de Critognato, por causa da singular e nefanda crueldade do orador. Este, descendente de família mui preclara entre os Arvernos, e homem de grande autoridade, falou nesta substância: "Nada direi do parecer daqueles que dão o nome de rendição à mais vergonhosa escravidão, pois em minha opinião nem devem os tais ser considerados cidadãos, nem ter assento neste conselho. Respondo àqueles que opinam pela sortida, e em cujo alvitre parece, no sentir de todos, residir a memória do antigo valor. Fraqueza é, e não coragem, o não poder suportar por algum tempo a penúria. Mas depressa se encontra quem se ofereça à morte, que quem sofra a dor com paciência. Eu aprovaria certamente este parecer (tanto em mim pode o pundonor), se visse que nenhuma outra perda acarretava, se não a da nossa vida: mas no tomar uma resolução, atentemos em toda a Gália, que convocamos em nosso auxílio. Que ânimo julgais que teriam nossos parentes e consangüíneos, se, mortos estes oitenta mil homens num lugar, se vissem obrigados a combater quase sobre os seus mesmos cadáveres? Não priveis do vosso auxílio aqueles, que por vossa causa desprezaram o seu perigo, nem vades por vossa estultícia, temeridade ou fraqueza, perder a toda Gália, e submetê-la à escravidão. Porque não vieram no dia aprazado, duvidais porventura da fidelidade e constância deles? Como assim? Julgais que os romanos se empregam quotidianamente naquelas fortificações ulteriores para mostrar ânimo? Se fechada toda a entrada não podeis ser certificados por correios que a vinda dos vossos se aproxima, sabei-o pelo testemunho dos mesmos, que sobressaltados com o temor dela, nem dia nem noite interrompem o trabalho da fortificação. Qual é, pois, o conselho que dou? Fazer o mesmo que fizeram os nossos antepassados em guerra de nenhuma sorte igual, a dos Cimbros e Teutões, na qual compelidos para as praças e coagidos por igual penúria, sustentaram a vida com os corpos dos que pela idade pareciam inúteis para a guerra, e não se renderam aos inimigos. Se disto não tivéssemos exemplo, julgaria eu, todavia, mui belo instituí-lo e transmiti-lo aos vindouros, por amor da liberdade. E que houve jamais semelhante àquela guerra? Assolada a Gália, e ocasionada grande calamidade, retiraram-se por fim os Cimbros de nossas fronteiras, e demandaram outras terras; direitos, leis, territórios, liberdade, tudo isso nos deixaram. Mas os Romanos que outra coisa exigem, ou querem, a não se fazer assento, levados da inveja, nas terras e cidades de todos os que depararam nobilitados e potentes pelas armas, impondo-lhes o jugo de uma eterna escravidão? Nunca fizeram a guerra com outro pressuposto. Se ignorais o que vai pelas nações longínquas, atentai na vizinha Gália, que reduzida à província, com a jurisdição e as leis mudadas, e sujeita às segures, vê-se opressa com perpétua escravidão."
LXXV - Expostos os pareceres, resolvem que os que, por doentes ou em razão da idade, eram inúteis para a guerra, se retirem da praça e exponham antes a tudo, que a sofrer as conseqüências do parecer do Critognato: que, se o caso o requeresse, e os auxílios se demorassem, devia-se, todavia, lançar antes mão daquele alvitre, que renderem-se e sujeitarem-se a uma paz ignominiosa. Os Mandubios, que os haviam recebido na praça são obrigados a sair com mulheres e filhos. Aproximando-se de nossas fortificações, pediam estes em lágrimas com todo gênero de súplicas, que os socorrêssemos com alimentos, recebendo-os por escravos. Mas César, dispondo guardas nas trincheiras, vedava que fossem recebidos.
LXXIX - Entretanto, Cômio e os mais chefes, a quem fora conferido o comando supremo, chegam com todas as tropas a Alésia, e ocupando uma colina exterior, acampam a não mais de mil passos de nossas fortificações. No dia seguinte, tirando a cavalaria dos arraiais, enchem toda aquela planície, que dissemos estender-se três mil passos em comprimento, e nas alturas postam as tropas de pé um pouco encobertas deste lugar. Havia vista de Alésia para o campo. Correm, avistadas estas tropas auxiliares; congratulam-se entre si; excitam-se à alegria os ânimos de todos. Tiram pois as tropas da praça, e postam-nas junto aos muros; cobrem com grades o próximo fosso, e enchem-no com faxina; preparam-se para a sortida, e todas as ocorrências.
Ao chegarem ao local da batalha, durante a noite, as tropas gaulesas de reforço
estabeleceram-se numa colina a aproximadamente mil e quinhentos metros das
fortificações romanas. Do oppidum, avistava-se todo o campo de batalha,
e os gauleses sitiados, tomados de novo ânimo, começaram a preparar um ataque,
preenchendo os fossos mais externos com faxinas e toda a espécie de entulho.
LXXX - Disposto todo o exército a uma e outra parte das fortificações, para, quando fosse necessário, ocupar cada um e conhecer o seu lugar, manda César sair dos arraiais a cavalaria, e travar combate. Havia de todos os arraiais, que de quaisquer partes ocupavam alturas, vista para o campo, e todos os soldados esperavam atentos o êxito da batalha. Tinham os Gauleses intermeado entre os de cavalo raros arqueiros e soldados armados à ligeira, que socorriam aos seus que cediam, e sustentavam o ímpeto dos nossos cavaleiros. Muitos destes se retiravam feridos da peleja. Acreditando irem os seus de cima, e vendo serem os nossos assoberbados pela multidão, de todas as partes os Gauleses, não só os da praça, como os que tinham vindo em auxílio deles, não cessavam de animar os seus com clamor e ululato. Como a ação se passava à vista dos dois campos, nenhum ato de covardia ou de bravura podia ficar oculto; eram uns e outros estimulados ao valor, já pelo desejo de glória, já pelo temor da ignomínia. Combatendo-se quase desde o meio dia até o pôr-do-sol com duvidoso resultado, os Germanos, por uma parte, lançaram-se em esquadrões cerrados sobre os inimigos, e os rechaçaram; postos estes em fuga, são os arqueiros envolvidos, e mortos. Da mesma forma os nossos, pelas demais partes, os perseguiram até os arraiais e não lhes deram tempo de tornar a reunir-se. Mas os que tinham saído de Alésia, quase perdido a esperança da vitória, retiram-se tristes para dentro da praça.
LXVIII - Metido de permeio um dia, e aprestado neste espaço grande número de grades, escadas, arpéus, saem os Gauleses dos arraiais em silêncio à meia noite e aproximam-se de nossas fortificações que olhavam para o campo. Levantando de repente clamor, pelo qual os que estavam sitiados na praça, soubessem da aproximação deles, entram a lançar grades nos fossos, a arredar os nossos das trincheiras com fundas, setas, pedras, a dispor tudo o mais que respeitar a um assalto. Ao mesmo tempo, ouvindo o clamor, dá Vercingetórix sinal aos seus com a trombeta, e fá-los sair da praça. Como nos precedentes dias, tomam os nossos nas fortificações o lugar que a cada um havia sido assinado: com fundas, seixos de librar, e azagaias, que nelas tinham disposto, e com pelotas aterram os Gauleses. Tirada a vista pelas trevas, recebem-se muitas feridas de parte a parte. Muitos arremessões são arrojados pelos tormentos. Mas os lugares tenentes M. Antônio, e C. Trebônio, a quem coubera a defesa destes postos, quando entendiam estarem os nossos sendo apertados em algum ponto, dos fortes mais distantes tiravam destacamentos, que lhes enviavam em socorro.

LXXXII - Enquanto os Gauleses estavam mais longe das fortificações, causavam-nos mais danos com a multidão de projéteis; depois que chegaram para mais perto, ou sem saber nos estrepes se feriam, ou caindo nas covas, se espetavam, ou atravessados de pilos lançados da trincheira e torres, pereciam. Depois de recebidas de toda a parte muitas feridas, sem tomarem ponto algum fortificado, ao aproximar-se o dia, temendo que por sortida dos arraiais superiores, os atacássemos pelo flanco aberto, retiraram-se para os seus. Mas, os de dentro da praça, enquanto tiravam para fora o que Vercingetórix tinha aprestado para a sortida, cegam os primeiros fossos e nisso se demoram, antes que chegassem às nossas fortificações, reconheceram haverem-se retirado os seus. Assim voltam para a praça, sem levar a sortida a efeito.
LXXXIII
- Repelidos duas vezes com grandes perdas, deliberam os Gauleses sobre o que
lhes convém fazer; chamam os conhecedores dos lugares: deles sabem qual a situação
e fortificação dos arraiais superiores. Havia para o setentrião uma colina,
que pela grandeza do circuito não tinham os nossos podido compreender na
circunvalação: viram-se pois obrigados a fazer arraiais em lugar quase
desvantajoso e docemente inclinado. A estes ocupavam os lugar-tenentes C. Antísio
Regino e C. Canínio Rebilo com duas legiões. Conhecidos os sítios pelos
exploradores, os generais inimigos escolhem entre todas as tropas sessenta mil
homens daquela cidades, que tinham a maior nomeada de bravura: combinam entre si
secretamente o que, e como convenha obrar; designam para o ataque a hora do
meio-dia. A estas tropas prepõem o Averno Verassivellauno, um dos quatro
generais, parente de Vercingetórix. Saindo dos arraiais na primeira vela da
noite, e concluindo o caminho quase ao nascer do dia, ocultou-se ele por trás
da montanha e ordenou aos soldados que repousassem do trabalho noturno. Como
pareceu apropinquar-se meio-dia, avançou, para aqueles arraiais que acima
dissemos, e entraram ao mesmo tempo, a cavalaria a aproximar-se de nossas
fortificações que olhavam para o campo, e as mais tropas a mostrar-se em
frente dos arraiais.
Após
o fracassado ataque, as forças gaulesas retornam aos acampamentos para
descansar e se reagrupar. Durante o dia, resolvem que o próximo ataque se
daria no dia seguinte por volta do meio-dia. Durante o conselho, descobrem,
consultando aqueles que conheciam melhor o terreno, os pontos mais fracos da
fortificação romana, e decidem que o local ideal para o ataque seria uma
colina ao norte, que por sua extensão não estava devidamente protegida
pela circunvalação romana. Ao longo da noite, deslocam parte de suas
tropas para as posições previamente combinadas, e por volta do meio-dia
inicia-se a quarta batalha de Alésia.
LXXXIV - Ao ver da cidadela de Alésia os seus, sai Vercingetórix da praça, levando dos arraiais as longas hásteas aguçadas, as galerias cobertas, as foices e o mais que tinha preparado para a sortida. Combate-se ao mesmo tempo em todos os lugares, e tenta-se tudo: se alguma parte parece menos forte, contra ela se corre. O exército romano, distribuído por tantas fortificações, não acode com facilidade a muitos pontos. Aterra, sobremodo, aos nossos o clamor que no combate se lhes levantou pela retaguarda, porque vêm a sua segurança posta na bravura alheia, sendo que o perigo em distância se nos figura ordinariamente maior.

LXXXV - De um lugar sobranceiro que ocupa, nota César o que se passa em cada ponto; envia socorro aos que vê em aperto. A nenhum dos dois exércitos escapa ser esta a ocasião em que se deve empregar maior esforço para vencer: aos Gauleses, se não escalarem as nossas fortificações, nenhuma esperança lhes resta de salvação; aos Romanos, se bem as defenderem contra a escalada, se depara o termo de todos os trabalhos. As fortificações superiores, para onde dissemos haver sido enviado Vercassivelauno, são as que se acham em maior risco. A desigual sumidade de colina, em cuja encosta se acham assentadas, é para elas ameaçador padrasto. Uns arrojam projéteis de cima, outros acercam-se das trincheiras, formando testudes, revezam-se os fatigados por assaltantes de fresco. O terrado que todos lançam sobre o espaço fortificado, não só proporciona subida aos Gauleses, como inutiliza as ciladas que haviam os Romanos ocultado na terra; aos nossos, nem armas, nem forças, são já suficientes.
LXXXVI - Ciente disto, manda César a Labieno com seis coortes em socorro aos que se acham em aperto, ordenando-lhe que, se não puder sustentar o assalto, faça uma sortida com as coortes, mas isto em caso extremo. Vai ter com os demais, e exorta-os a não sucumbirem ao trabalho, demonstrando-lhes que deste dia e hora, está pendente o fruto de todas as precedentes batalhas. Os da praça, desesperando de forçar as posições, que olhavam para o campo, por causa da grandeza das fortificações, tentam escalar as das alturas: para aí transportam quanto haviam preparado. Com uma nuvem de dardos desviam aos que combatiam das torres, cegam os fossos com terrados e grades, cortam a trincheira e parapeito com foices.
LXXXVII
- Manda para ali primeiramente o adolescente Bruto com seis coortes, depois ao
lugar-tenente C. Fábio com outras sete, por fim, tornando-se a peleja mais
acesa, conduz em pessoa tropas frescas de reforço. Restabelecida a peleja, e
rechaçados os inimigos, dirige-se para onde enviara a Labieno; tira quatro
coortes do próximo forte; ordena a parte da cavalaria que o siga, a parte que
torneie as fortificações exteriores, e acometa o inimigo pela retaguarda.
Depois que nem baluartes, nem fossos, podiam resistir à força dos inimigos.
Labieno reúne quarenta coortes, que o acaso lhe ia deparando dos fortes mais
vizinhos, e comunica a César por expressos o que entende deve fazer-se. Dá-se
César pressa, a fim de assistir à batalha.
Vendo que a fortificação havia sido rompida, César envia treze coortes ao local, comandadas por Bruto e Fábio (8 bis), e em seguida dirige-se pessoalmente ao local com novas tropas. Os reforços surtem efeito e os gauleses são rechaçados. A seguir, César corre para o local onde combatia Labieno, seguido por quatro coortes e parte de sua cavalaria (9). Enquanto isso, o restante da cavalaria contornou a colina ao norte, para surpreender as forças de Verassivellauno pela retaguarda. Antes da chegada de César, Labieno compreende que suas forças não eram suficientes para conter o ímpeto do ataque gaulês, e manda chamar mais trinta e nove coortes, informando a César de seus planos. César acelera a marcha, para comandar pessoalmente a batalha.
LXXXVIII - Conhecida a sua vinda pela cor do vestido, que costumava usar nas batalhas por insígnia e avistados os esquadrões de cavalaria e as coortes, que mandara segui-lo, porquanto das alturas se devassavam os lugares declives, por onde vinha, travam os nossos a batalha. O clamor se levanta de ambas as partes, é seguido de outro levantado das trincheiras e de todos os fortes. Omitidos os pilos, atacam os nossos a espada. De repente, avista-se a cavalaria pela retaguarda ; vêm chegando outras coortes. Os inimigos voltam costas; aos que fogem sai ao encontro a cavalaria. Faz-se grande carnificina. Sedulio, caudilho e principal dos Lemovices, é morto; o Averno Vercassivelauno é tomado vivo na fuga; setenta e quatro signas militares são apresentadas a César; de tamanho número poucos dos inimigos se recolheram aos arraiais sem feridas. Os da praça, vendo a mortandade e fuga dos seus, retiram as tropas de junto das nossas fortificações, sem mais esperança de salvação. Faz-se logo, ouvido isto, fuga dos arraiais Gauleses. E se os soldados não estivessem cansados dos freqüentes reforços e do trabalho de todo o dia todas as tropas inimigas poderiam ter sido destruídas. A cavalaria enviada à meia-noite alcança a retaguarda dos inimigos; grande número é aprisionado e morto; os que restam da fuga retiram-se para suas cidades.
LXXXIX - No seguinte dia Vercingetórix, convocado conselho dos seus, demonstra-lhes que havia empreendido a guerra, não por interesse seu particular, mas pela liberdade comum, e pois que se tinha que ceder à força, se lhes oferecia para uma das duas coisas, ou para com a sua morte satisfazerem aos Romanos, ou para o entregarem vivo aos mesmos, como melhor entendessem. São a tal respeito mandados embaixadores a César, que ordena sejam entregues as armas e trazidos à sua presença os chefes. Estabeleceu o mesmo o seu tribunal num forte em frente dos arraiais: são para ali levados os chefes; rende-se-lhe Vercingetórix, são depostas as armas. Reservando os Héduos e os Arvernos, a ver se por eles recobrava as respectivas cidades, o restante dos cativos o distribuiu por cabeça a cada soldado a título de despojo.
XC - Concluído isto, parte para os Héduos; recebe a submissão da cidade. Mandados para ali, os embaixadores dos Arvernos, prometem fazer quanto lhes ordenasse. Exige-lhes grande número de reféns. Envia as legiões a quartéis de inverno. Restitui aos Hédulos e aos Arvernos cerca de vinte mil cativos. A.T. Labieno com duas legiões e a cavalaria manda-o partir para os Sequanos, dando-lhe por adjunto a M. Sempronio Rutilo. Ao lugar-tenente C. Fábio e a L. Minúcio Basilo com outras duas legiões coloca-os nos Remos, para que não venham estes a sofrer alguma invasão dos Belovacos comarcãos seus. A C. Antístio Regino, a T. Sêxtio, a C. Canínio Rebilo, cada um com uma legião, envia-os o primeiro para os Ambilaretos, o segundo para os Bituriges, o terceiro para os Rutenos. A Q. Túlio Cícero e P. Sulpício, coloca-os em Cabilão e Masticão entre os Hédulos junto ao Arar, a fim de que entendam no abastecimento de víveres. Resolve o mesmo invernar em Bibracte. Recebidas estas comunicações de César, fazem-se súplicas públicas em Roma por vinte dias.
Conclusão
Durante quase dois mil anos não se deu a devida importância à obra de César, pois acreditava-se que não passava de uma peça de propaganda muito bem escrita, destinada a popularizar uma imagem de liderança, dinamismo e forte magnetismo pessoal de um homem para o qual a ambição política não tinha limites. Somente a partir do final do século dezenove e início do vinte voltou-se a estudar o De Bello Gallico de forma mais isenta, imparcial, sendo que atualmente considera-se, como pudemos ver ao longo deste trabalho, que praticamente todas as informações fornecidas por César em sua obra foram bastante precisas. Ao longo dos séculos, a imagem de Júlio César como a de um político habilidoso ofuscou sua capacidade de liderança no campo de batalha e sua extrema habilidade tática. A revelação da exatidão dos números envolvidos na batalha de Alésia evidentemente muda este quadro de forma radical. Apesar de ter começado a exercer a atividade militar com uma idade em que a maioria dos comandantes do mundo antigo já havia se aposentado ou mesmo morrido, César revelou uma habilidade extraordinária para aproveitar ao máximo as capacidades do exército romano, como a disciplina, a resistência, a tecnologia superior, e principalmente a faculdade de atuar como um corpo único, que transformava cada legião num mini-exército altamente eficiente.
A vitória romana em Alésia expressa
essa superioridade do modelo romano de força militar de forma contundente.
Entretanto, ainda hoje nenhum exército, por melhor que seja, seria capaz de
lidar com tamanha inferioridade numérica como a que enfrentaram as legiões de
César em Alésia sem uma liderança brilhante e inspiradora. Durante seu maior
embate, César soube utilizar de forma eficiente toda a tecnologia e tradição
à disposição do exército romano, e estas vantagens, aliadas ao fato de
enfrentar um inimigo que não estava preparado para lutar um tipo de combate em
que não podia se movimentar livremente, deu à César sua mais expressiva vitória.
Ele certamente não foi o mais brilhante comandante militar do mundo antigo.
Numa comparação rápida, mesmo o leigo veria que homens como Alexandre, por
exemplo, o superaram por larga margem em habilidade tática e estratégica, como
reconheceu o próprio César. Contudo, sua capacidade excedia em muito a média,
e sua vitória em Alésia, conforme já afirmamos, mudou os rumos históricos da
Europa ao introduzir na Gália os elementos da poderosa cultura romana, uma
semente que germinaria bem mais tarde, com vigor insuspeitado, e transformaria
aquela região numa das maiores potências políticas, econômicas e culturais
da história da civilização ocidental.
Fontes e Bibliografia consultada